Notícia
Uma pista para a Costa do Cacau: o que se sabe sobre um novo aeroporto na região
A pista de Ilhéus não pode crescer, o aeroporto do Porto Sul dorme desde 2010 e no Fojo não há registro de nada. Por que a Costa do Cacau e do Dendê precisa de uma pista nova.
Quem pousa em Ilhéus num sábado de verão conhece a cena: o avião faz a curva sobre o Pontal, a pista aparece espremida entre o mar, a lagoa e os bairros, e o pouso é curto. Dali até a Concha são noventa minutos de BA-001. Esse aeroporto, que acaba de ganhar um terminal novo, é a porta de entrada de toda a Costa do Cacau e de boa parte da Costa do Dendê, e também o seu limite. Esta é a história de uma pista que não pode crescer, de um projeto que dorme desde 2010 e de uma conversa que anda pela vila de Itacaré.
A pista que chegou ao fim
O Jorge Amado nasceu em 1939 como Aeroporto do Pontal, três quilômetros do centro de Ilhéus. A pista tem 1.577 metros, dos quais 1.467 utilizáveis, depois que a agência de aviação mandou encurtá-la em 2007 pela proximidade da rodovia. Em 2024 a concessionária entregou um terminal de 4.500 metros quadrados, com capacidade para 1,2 milhão de passageiros por ano, e naquele mesmo ano o aeroporto bateu recorde: mais de 674 mil passageiros em cerca de 5.200 voos. A demanda continua subindo. No feriado de 12 de outubro de 2026, a projeção foi de 8,8 mil passageiros, quase 40% a mais que no ano anterior.
O terminal cresceu; a pista, não. Em março de 2026, ao destinar R$ 70 milhões do Novo PAC para um sistema de frenagem de emergência na cabeceira, o Ministério de Portos e Aeroportos foi direto: a pista "está cercada por obstáculos naturais e urbanos", o que inviabiliza a extensão física. A escolha pelo equipamento, e não pelo asfalto, é a confissão oficial de que o Jorge Amado chegou ao seu tamanho final. Isso significa aviões de menor porte, menos voos diretos de longa distância e, no verão, uma operação no limite: em janeiro de 2025, os voos extras superaram os regulares.
O que o acesso aéreo faz por um destino
Basta olhar para o sul. Porto Seguro, com pista para aviões maiores e voos internacionais, fechou 2025 com 1,3 milhão de desembarques, recorde histórico, 204 voos internacionais no ano e um verão projetado em quase 900 mil visitantes e mais de R$ 2 bilhões. Ilhéus movimenta cerca de um terço disso. A diferença não é de praia: é de pista.
A região tem tudo o que falta a muitos destinos: a Concha e a Tiririca a quinze minutos a pé uma da outra, a Península de Maraú e Barra Grande a duas horas, Comandatuba, as cachoeiras de Taboquinhas, o cacau. A Secretaria de Turismo da Bahia chamou a rota de Congonhas para Ilhéus, tornada permanente pela Latam em outubro de 2025, de "fundamental" para a Costa do Cacau. A Gol, ao abrir o voo regular do Galeão em junho de 2026, descreveu Ilhéus como ponto central do Sul da Bahia. A Azul programou 90 operações extras de São Paulo para o verão de 2026 e 2027. Em outras palavras: as companhias querem vir. O que as segura é o chão.
O aeroporto que dorme no Porto Sul
A ideia de um novo aeroporto em Ilhéus não é nova, e não é boato. No fim dos anos 2000, quando o Estado desenhou o Complexo Porto Sul, em Aritaguá, o pacote era um "sistema intermodal": o porto, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste, zonas de exportação e um novo aeroporto internacional com duas pistas de 3.000 metros. Em março de 2010 o órgão ambiental fez audiência pública sobre o termo de referência do estudo de impacto; o planejamento federal de 2011 listava "Ilhéus: novo aeroporto, pista de 3.000 metros", com implantação prevista para depois de 2015. Falou-se então em Ponta da Tulha, na BA-001, no caminho de Itacaré.
O porto, esse, avança. É um terminal privado da Bahia Mineração, com calado de até 18 metros e capacidade de 26 milhões de toneladas por ano. Teve licença prévia em 2012, de instalação em 2014, ordem de serviço em 2020, e em julho de 2026 o Fundo da Marinha Mercante aprovou um financiamento de R$ 6,59 bilhões; a entrega é citada para 2027. A ferrovia está com três quartos das obras feitas. Mas em nenhum documento de 2024 a 2026 sobre o Porto Sul, do financiamento à concessão da ferrovia, o aeroporto aparece. O projeto existe no papel de 2010 e não tem status hoje. O que há de concreto é a obrigação, declarada pelo governo do Estado em 2018, no leilão da concessão, de que o concessionário estudasse um novo sítio, e a avaliação, feita na época, de que o terreno atual do Pontal valeria cerca de R$ 300 milhões. Oito anos depois, o programa de governo para o próximo mandato prevê R$ 70 milhões no terminal de hoje e um aeroporto novo em outra região, o Médio Rio de Contas.
E o Fojo?
Em Itacaré circula, há algum tempo, a conversa de que um aeroporto poderia nascer na região do Fojo. Vale dizer com clareza o que se sabe: não há registro público dessa ideia. Nenhum estudo, portaria, projeto de lei ou declaração oficial associa o Fojo, ou qualquer ponto de Itacaré, a uma pista de pouso. A única infraestrutura aérea registrada no município é o heliponto de um resort, de 2009.
O Fojo é uma comunidade quilombola de Taboquinhas, na margem direita do Rio de Contas, com 65 famílias e um território de 1.344 hectares reconhecido pelo Incra. Em novembro de 2025, um decreto federal declarou a área de interesse social para a titulação definitiva. A comunidade está, como quase todo o município, dentro da Área de Proteção Ambiental da Costa de Itacaré e Serra Grande, criada em 1993. Qualquer projeto ali teria de começar por uma conversa com essa comunidade e pelo licenciamento ambiental, o que, em Itacaré, não é obstáculo, é identidade: a BA-001 que tirou a cidade do isolamento nos anos 1990 só foi aberta com a criação, em compensação, do Parque Estadual da Serra do Conduru.
O que já existe pelo caminho
Enquanto o grande aeroporto não vem, a região se vira com uma rede de pistas menores, que o viajante nem sempre conhece. Comandatuba, em Una, virou aeródromo público em 2021 e recebe voos regulares da Azul de São Paulo e de Belo Horizonte. Barra Grande, em Maraú, tem uma pista privada de mil metros, e a Abaeté voa de Salvador para lá e para Morro de São Paulo em meia hora. O Estado anunciou a ampliação da pista de Morro para 1.500 metros, de olho em aviões de 70 lugares, e lista Canavieiras entre os aeródromos em recuperação. Em julho de 2025, a Secretaria de Turismo anunciou um programa de estímulo à conectividade aérea regional. Nada disso substitui uma pista de 3.000 metros em Ilhéus; tudo isso ajuda.
Para quem viaja agora
O Jorge Amado continua sendo o caminho: 65 a 75 quilômetros de Itacaré, uma hora e meia de carro, com voos diretos de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Salvador. Quem reserva cedo no verão encontra mais oferta do que nunca. E quem acompanha a região sabe que o próximo grande salto do turismo da Costa do Cacau e do Dendê depende menos de uma nova praia do que de uma nova pista. O guia explica em Como chegar a Itacaré todos os caminhos de hoje.
Serviço
- Aeroporto de Ilhéus (IOS): pista de 1.577 m (1.467 úteis), terminal de 2024 para 1,2 milhão de passageiros/ano; recorde de 674 mil em 2024
- Limite oficial: extensão da pista inviável por obstáculos naturais e urbanos (Ministério de Portos e Aeroportos, março de 2026)
- Porto Sul: terminal da Bamin em Aritaguá, R$ 6,59 bi aprovados em 2026, entrega citada para 2027; o aeroporto do projeto original de 2010 não tem status atual
- Fojo: comunidade quilombola de Taboquinhas, decreto de titulação de 2025; sem qualquer registro público de aeroporto
- Pistas regionais: Comandatuba (Una, voos regulares), Barra Grande (Maraú, privada) e Morro de São Paulo (ampliação anunciada)
Com informações de Socicam, Panrotas, Movimento Econômico, Bahia Notícias, Agerba, Ministério dos Transportes, Mapa de Conflitos da Fiocruz, Comissão Pró-Índio de São Paulo, ANAC, Gol, Correio e A Tarde.